
POLÍTICA & ELEIÇÕES
Empoe nova pressão sobre o governo
Dados eleitorais de 2026 mostram redução da vantagem petista em seu principal reduto regional, enquanto auditorias do TCU apontam aumento da dívida, déficit efetivo e fragilidades na elaboração das contas públicas;
números, porém, sustentam a descrição de uma “queda vertiginosa” de Lula no Nordeste.
O primeiro turno da eleição presidencial de 2026 produziu uma mudança relevante na geografia política brasileira. O Nordeste continuou sendo o principal reduto eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas a distância que separava o presidente do campo bolsonarista diminuiu. Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro (PL) registrou crescimento expressivo em relação ao desempenho obtido por Jair Bolsonaro na mesma região quatro anos antes.
O movimento eleitoral acontece num período em que a administração federal enfrenta questionamentos documentados sobre a trajetória das contas públicas. Em junho de 2026, o Tribunal de Contas da União aprovou com ressalvas as contas presidenciais referentes a 2025 e registrou alertas relativos à sustentabilidade fiscal, ao crescimento da dívida pública e à qualidade de determinadas projeções orçamentárias.
Os números ajudam a dimensionar a mudança.
No primeiro turno de 2022, Lula recebeu 21.753.139 votos no Nordeste, enquanto Jair Bolsonaro obteve 8.787.394. A diferença foi de aproximadamente 12,97 milhões de votos.
Em 2026, Lula recebeu 21.494.584 votos, equivalentes a 63,77% dos votos válidos da região. Flávio Bolsonaro chegou a 10.398.973 votos, ou 30,85%. A diferença caiu para 11.095.611 votos.
A mudança é assimétrica.
Lula perdeu 258.555 votos, aproximadamente 1,19% de sua votação nordestina de 2022.
Flávio Bolsonaro, comparado ao resultado de Jair Bolsonaro quatro anos antes, acrescentou 1.611.579 votos, um crescimento de 18,3%. Ele avançou nos nove estados nordestinos.
Portanto, os dados sustentam a afirmação de que Flávio Bolsonaro avançou fortemente no Nordeste. Eles não sustentam, porém, a expressão “queda vertiginosa de Lula”: em votos absolutos, a retração de Lula foi de pouco mais de 1%.
O movimento mais significativo está na redução da vantagem relativa petista e no crescimento do adversário.
Fontes: resultados eleitorais de 2022 e apuração de 2026 baseada nos dados do TSE.
O resultado de 2026 é relevante porque o avanço ocorreu justamente numa região onde o campo político associado a Bolsonaro historicamente encontra sua maior resistência eleitoral.
Flávio Bolsonaro ultrapassou a votação obtida pelo pai em 2022 em todos os nove estados do Nordeste. O ganho regional foi de 1,61 milhão de votos.
Na Bahia, por exemplo, Flávio recebeu 2.442.585 votos, ou 28,53% dos válidos. Lula permaneceu amplamente à frente, com 5.664.771 votos e 66,17%, mas teve aproximadamente 208 mil votos a menos do que em 2022.
A Bahia, portanto, ilustra bem o fenômeno: Lula continua dominante, mas o adversário ampliou sua presença.
No resultado nacional do primeiro turno, a mudança foi ainda mais expressiva. Flávio Bolsonaro terminou com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula obteve 45,16%, diferença aproximada de 2,3 milhões de votos.
Enquanto o cenário eleitoral apresenta mudança, os relatórios oficiais de fiscalização também colocam a política fiscal do governo federal sob pressão.
Nas contas de 2025, o TCU registrou déficit primário efetivo de R$ 58,69 bilhões, equivalente a 0,46% do PIB.
Após deduções legalmente permitidas de R$ 48,68 bilhões, o déficit considerado para fins da meta fiscal caiu para aproximadamente R$ 10 bilhões e permaneceu dentro da banda prevista na legislação.
Essa diferença é importante.
Outro indicador destacado pelo Tribunal foi a dívida.
A Dívida Bruta do Governo Geral passou de 76,3% para 78,7% do PIB em 2025.
Segundo a avaliação do TCU, para estabilizar a relação dívida/PIB naquele contexto seria necessário um superávit primário estimado em aproximadamente 1,94% do PIB.
O resultado efetivamente registrado ficou cerca de 2,4 pontos percentuais distante desse esforço fiscal estimado.
Em auditoria específica, o Tribunal concluiu que a administração da dívida no curto prazo funcionava adequadamente, mas advertiu que sua sustentabilidade no médio e longo prazo dependeria de esforços fiscais mais consistentes e de uma relação mais favorável entre juros reais e crescimento econômico.
Os problemas não ficaram restritos a 2025.
Ao analisar o primeiro bimestre de 2026, o TCU constatou que as receitas primárias líquidas projetadas haviam sido reduzidas em R$ 13,6 bilhões, enquanto as despesas projetadas cresceram R$ 23,3 bilhões.
Como consequência, o déficit projetado passou de R$ 22,9 bilhões para R$ 59,8 bilhões — deterioração de aproximadamente R$ 36,9 bilhões em relação à previsão inicial.
Novamente, existe uma distinção técnica importante: depois das exclusões autorizadas pela legislação, o resultado utilizado para verificação da meta permanecia formalmente dentro dos limites fiscais.
A fiscalização encontrou ainda problemas específicos na elaboração das previsões fiscais.
Um deles envolveu o Imposto de Exportação incidente sobre petróleo.
Segundo o TCU, o governo trabalhou com projeção de exportação de 2,5 milhões de barris por dia, enquanto a média observada nos primeiros meses de 2026 estava próxima de 2,1 milhões.
O órgão também identificou diferenças de pelo menos R$ 446 milhões entre determinados valores de arrecadação utilizados na programação financeira e registros do Siafi.
Outro ponto dizia respeito à tributação de dividendos: até o primeiro quadrimestre, havia sido arrecadado somente 4,7% do valor projetado para o ano, segundo a análise do Tribunal.
A prestação de contas de 2025 também trouxe críticas relacionadas à transparência.
Segundo o Tribunal, a dificuldade de acompanhar claramente essas despesas compromete aspectos de publicidade e transparência fiscal.
Não se tratou, entretanto, de rejeição das contas.
Essa informação é essencial para uma reportagem juridicamente defensável.
Do lado eleitoral, o principal dado favorável a Flávio Bolsonaro não depende de interpretação: o crescimento ocorreu nas urnas.
Ele obteve no Nordeste:
A expansão foi de:
em quatro anos.
Sua participação regional aumentou de 26,97% para 30,85%, avanço de 3,88 pontos percentuais.
Além disso, a diferença entre Lula e o candidato do PL no Nordeste recuou de aproximadamente 13 milhões para 11,1 milhões.
Isso mostra uma redução mensurável da vantagem histórica de Lula na região, embora Lula ainda tenha terminado em primeiro lugar nos nove estados nordestinos.
A leitura estatística mais precisa é que o fenômeno de 2026 ocorreu principalmente pelo crescimento do adversário, e não por uma fuga maciça de votos de Lula.
Entre 2022 e 2026:
Isso significa que caracterizar o fenômeno simplesmente como “colapso” ou “queda vertiginosa” de Lula introduziria uma interpretação que os números do Nordeste, isoladamente, não comprovam.
O que os resultados efetivamente mostram é mais específico — e eleitoralmente relevante:
O efeito líquido foi a redução da vantagem regional petista.
A fotografia de outubro de 2026 reúne dois conjuntos independentes de indicadores.
No plano administrativo, o TCU registra aumento da dívida pública, déficit efetivo, necessidade de maior esforço para estabilização do endividamento e problemas de consistência e transparência em determinadas estimativas fiscais.
No plano político, Lula continua dominante no Nordeste, mas sua participação regional caiu, enquanto Flávio Bolsonaro acrescentou mais de 1,6 milhão de votos ao resultado alcançado pelo campo bolsonarista em 2022.
No plano nacional, Flávio terminou o primeiro turno de 2026 à frente, com 47,03% contra 45,16% de Lula.
Os números não autorizam afirmar que as fragilidades fiscais causaram a mudança eleitoral. Para demonstrar isso seriam necessárias pesquisas individuais e modelos causais capazes de controlar renda, inflação, emprego, programas sociais, avaliação governamental, identidade partidária e outras variáveis.
o governo chegou ao ciclo eleitoral de 2026 enfrentando alertas fiscais relevantes de seu principal órgão externo de controle, ao mesmo tempo em que seu principal adversário ampliou significativamente a presença eleitoral justamente na região historicamente mais favorável a Lula.
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