
Economia
Moeda americana fecha a R$ 5,446, maior cotação de 2026, enquanto Ibovespa recua 18,12%; analistas apontam revisão de apostas eleitorais e incerteza fiscal.
O mercado financeiro brasileiro encerrou outubro sob forte turbulência. Na semana posterior à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o dólar acumulou alta de 9,15%, a maior valorização semanal desde outubro de 2008, durante a crise financeira internacional. No mesmo período, o Ibovespa caiu 18,12%, registrando a pior semana desde março de 2020, no início da pandemia de covid-19.
Na sexta-feira (30), o dólar comercial avançou 1,09% e fechou a R$ 5,446, maior cotação de encerramento do ano. O Ibovespa recuou 0,75%, aos 167.921,80 pontos, no quinto pregão consecutivo de baixa.
A reeleição de Lula alterou as expectativas de parte dos investidores, que havia se posicionado para uma possível troca de governo após o primeiro turno. Naquele momento, a liderança de Flávio Bolsonaro alimentou apostas em uma mudança na condução da política econômica.
O chefe de alocação de investimentos da GT Capital, Nicolas Gass, afirmou à Reuters que o mercado apostava em uma mudança de governo e em uma possível virada fiscal. Com o resultado eleitoral, essas posições foram desmontadas rapidamente.
A estrategista de ações da Nomad, Rebecca Nossig, também apontou que parcela expressiva dos investidores precisou ajustar suas carteiras. Segundo ela, a atenção se voltou para as incertezas sobre a política fiscal e a composição da equipe econômica do próximo mandato.
A principal dúvida dos agentes financeiros está relacionada à trajetória das contas públicas, ao controle da dívida e às decisões da futura equipe econômica. A percepção de maior risco fiscal tende a pressionar os juros de longo prazo, encarecer o financiamento e reduzir o espaço para cortes mais intensos da taxa Selic.
Gass avaliou que a continuidade do atual governo diminuiu, entre investidores, a expectativa de mudança na condução das contas públicas. A leitura ajuda a explicar a pressão sobre ações e ativos brasileiros, mas não representa uma previsão certa sobre as decisões econômicas do próximo mandato.
A saída de capital externo ampliou a pressão sobre o mercado acionário. Dados da B3 citados pela Reuters apontaram retirada líquida de quase R$ 7,6 bilhões de investidores estrangeiros do mercado secundário de ações nos três primeiros pregões da semana.
Apesar da saída recente, o saldo estrangeiro permanecia positivo em quase R$ 8,6 bilhões no mês e próximo de R$ 36 bilhões no acumulado do ano, segundo os dados disponíveis na reportagem.
A turbulência não ficou restrita ao Brasil. A preocupação com os investimentos em inteligência artificial e os resultados de grandes empresas de tecnologia pressionou bolsas no exterior. Na sexta-feira, o S&P 500 caiu 1,82%, contribuindo para um ambiente de maior cautela.
No câmbio, fatores técnicos também influenciaram a sessão. A formação da Ptax de fim de mês provocou volatilidade, enquanto investidores buscaram proteção em dólar antes do feriado prolongado de Finados.
A semana terminou, portanto, com uma combinação de fatores domésticos e externos. A reação dos mercados nos próximos pregões dependerá, entre outros pontos, das sinalizações sobre a equipe econômica e das medidas que o governo apresentar para as contas públicas.
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