
Política
Grupo de WhatsApp coordenado por André Janones distribuiu tarefas diárias para apoiadores; mudança na comunicação do presidente também aproximou campanha das redes sociais.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2026 teve um componente decisivo fora dos palanques tradicionais: a mobilização digital de apoiadores. Segundo reportagem publicada pelo jornal britânico The Guardian neste sábado (31), o grupo de WhatsApp conhecido como “Exército de Lula” chegou a quase 11 milhões de participantes, depois de reunir cerca de 60 mil integrantes logo após o primeiro turno.
Coordenado pelo deputado federal André Janones, o grupo distribuía diariamente “missões” para estimular a produção e a circulação de conteúdos favoráveis ao presidente. As orientações buscavam ampliar o alcance das publicações e convencer eleitores durante a reta final da campanha.
O presidente também alterou sua relação com as plataformas digitais. De acordo com o jornal, Lula passou a gravar vídeos no formato selfie, uma mudança em relação ao início da campanha, quando costumava utilizar celulares de assessores.
A reportagem atribui parte dessa transformação à pressão de lideranças mais jovens, entre elas Ana Elisa Santos, eleita deputada federal por Minas Gerais aos 21 anos. Ela defendeu que a esquerda precisava aprender a dialogar com públicos que acompanham a política pelo Instagram e pelo TikTok.
Embora Lula tivesse mais seguidores, conteúdos de Flávio Bolsonaro chegavam a registrar até cinco vezes mais engajamento, segundo dados citados pelo Guardian. A mobilização organizada procurou reduzir essa diferença por meio da participação direta dos apoiadores.
Uma das ações incentivou militantes a publicar fotografias fazendo o gesto de “L” com as mãos e vestindo a camisa amarela da Seleção Brasileira, símbolo que havia sido associado a apoiadores do bolsonarismo.
A estratégia também buscou criar identidade coletiva. Para a pesquisadora Raquel Recuero, ouvida pelo jornal, o grupo ofereceu aos participantes senso de propósito e a possibilidade de canalizar energia em ações concretas.
Janones avalia que a rede pode continuar ativa em momentos específicos, inclusive para pressionar pela aprovação de projetos de interesse do governo. A continuidade, porém, não é simples: a dedicação intensa às redes pode gerar desgaste entre os participantes.
A reportagem também ressalta que a vitória de Lula teve outras explicações, como manifestações estudantis, mudanças na campanha e medidas de benefícios sociais adotadas pelo governo na reta final.
Assim, o crescimento do “Exército de Lula” evidencia a força da mobilização digital na disputa eleitoral, mas não permite atribuir exclusivamente às redes sociais o resultado das urnas.
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